Quando foi derrubado o muro de Berlim

Há três décadas, um dos símbolos da Guerra Fria, o Muro de Berlim, era derrubado pelas mãos das pessoas que foram separadas por ele. A construção dividiu durante 28 anos Berlim - e de certa forma o mundo - geográfica e politicamente. Quem caminha hoje pelas ruas da capital alemã encontra hoje apenas alguns marcos remanescentes dos 3,6 metros de altura e 155 quilômetros de extensão da parede de concreto.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência, lideradas por Inglaterra, França, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS). Com o avanço das tensões provindas da Guerra Fria, a Alemanha foi separada novamente, dessa vez em duas partes: Ocidental e Oriental. Berlim por ser uma zona de forte influência foi disputada pelos dois eixos.

O lado ocidental (capitalista) era liderado por Estados Unidos, Inglaterra e França. O Oriental (socialista) era liderado pela União Soviética. Passou a haver levas migratórias de populações tentando ir do lado socialista passou a fugir para o lado capitalista. Entre 1948 e 1961, cerca de 2,7 milhões de pessoas haviam deixado o País.

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Para evitar o fluxo de pessoas e um suposto levante armado, a União Soviética decidiu, junto à Alemanha Oriental, erguer o muro. Segundo o historiador e doutorando em educação pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Webster Belmino, "o muro de uma cidade representou o muro no mundo. Entre uma cultura capitalista e um estado totalitário".

O muro se manteve de pé durante os anos que seguiram à Guerra Fria, ao tempo que o questionamento sobre ele aumentava; bem como o questionamento sobre a própria guerra (Foto: AFP)

Segundo o historiador, a construção do muro gerou forte repressão pela mídia internacional, pois esteticamente representava uma prisão para o lado oriental. A separação física acabou se tornando uma separação de cunho ideológico. "O mundo estava sendo convidado a decidir por um lado ou outro" explica Webster.

O Muro de Berlim

O fechamento entre as duas regiões aconteceu sem aviso prévio, na madrugada de 13 de agosto de 1961. As pessoas tiveram que decidir em questão de horas onde ficariam, e muitos foram separados da família e dos amigos por décadas.

O muro começou a ser construído naquele 13 de agosto de 1961. Eram 155 quilômetros que separavam Berlim, sendo 43 quilômetros na capital e 112 quilômetros na região metropolitana.

Tinha uma altura de 3,6 metros e espessura de 15 metros. Contava com 14mil soldados, armadilhas com espinhos, cerca elétrica, 186 torres de vigilância, 600 cachorros e a "faixa de morte" - era a área entre o muro externo e o interno, coberta com areia, para que as pegadas das pessoas que tentassem escapar ficassem marcadas no solo, e onde os guardas podiam atirar em qualquer um que tentasse cruzar a fronteira.

Mais de cem mil alemães orientais tentaram fugir. Cerca de 600 deles foram mortos a tiros por soldados ou morriam afogados tentando atravessar algum rio, ou em outros acidentes. Alguns se suicidaram ao serem flagrados na tentativa de fuga.

O prelúdio do fim

O muro se manteve de pé durante os anos de Guerra Fria, ao tempo que o questionamento sobre ele aumentava. Novos movimentos que surgiam tentavam não estar alinhados nem aos EUA ou URSS.

Do lado da URSS, o aparelhamento do Estado voltado para o fortalecimento do exército consumia maior parte dos recursos, o que fez o país entrar em crise econômica. Esse forte aparato bélico retirou dinheiro de áreas fundamentais. "O que a URSS conseguiu fazer que num período curto, saiu de uma nação feudal para uma nação industrial de boas condições de vida, desapareceu", comenta Webster Belmino.

Com o enfraquecimento da URSS todos os países alinhados à ela também se enfraqueceram, dentre eles a Alemanha Oriental. "Até que não havia condições ideológicas e industriais para se manter o muro em pé", afirma Webster.

Mais de cem mil alemães orientais tentaram fugir. Cerca de 600 deles foram mortos a tiros por soldados ou morriam afogados tentando atravessar algum rio (Foto: AFP)
A destruição da Cortina de Ferro

Chris Gueffoy foi a última pessoa que morreu ao tentar fugir. No dia 5 de novembro de 1989. Chris e seu amigo Christian Gaudian conseguiram atravessar o chamado muro interior, mas, ao cruzar uma cerca, ativaram o alarme. Os dois conseguiram chegar ao último obstáculo. No entanto, os guardas atiraram, atingindo Chris no coração. Seu companheiro foi preso. O barulho dos tiros chegou a ser ouvido pela mãe de Chris, Karin Gueffoy.

”Junto com meu outro filho Stephan, cruzamos a Avenida Britzer em Treptow para ver o local exato em que Chris havia sido baleado e sangrado até a morte. O lugar, naquele dia, não encontramos.” conta Karin em depoimento ao livro O dia que o muro caiu.

Após três dias da morte de Chris, um mal-entendido ao responder um jornalista antecipou a queda do muro. Günter Schabowski era o porta-voz do governo da Alemanha Oriental, em 9 de novembro de 1989. Ao anunciar a nova lei de mobilidade dos cidadãos, Günter afirmou equivocadamente numa entrevista coletiva que a lei entraria em vigor imediatamente. Correspondentes internacionais correram para dar a notícia, que chegou de fora para dentro da Alemanha Oriental. Multidão se aglomerou no local e não houve alternativa se não permitir a passagem.

O que sobrou do muro

Se antes as pessoas eram separadas pelo muro, hoje podem caminhar livremente sobre as pedras que marcam a sua antiga divisão. Ou mesmo visitar a East Side Gallery, pedaço da construção que foi transformado em galeria de arte a céu aberto, conhecida como o “memorial internacional da liberdade”.

Mais de 40 mil blocos de 1,2 metro de largura e 3,6 metros de altura foram esmagados e convertidos em material para reparar a estrada que liga Berlim ao Mar Báltico. Outra parte foi leiloada pela Limex, uma antiga empresa da RDA. Uma centena de segmentos foram doados a museus e instituições em todo o mundo, como o Museu Imperial da Guerra em Londres, a Biblioteca Ronald Reagan na Califórnia e no Washington Newsmuseum.

Confira o que mudou na cidade de Berlim, entre 1984 e 2018, com e sem o muro:

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A queda do Muro de Berlim foi um evento que começou no dia 9 de novembro de 1989 e deu início ao processo de reunificação da Alemanha (processo concluído no ano seguinte). O Muro de Berlim foi um dos grandes símbolos da Guerra Fria, e sua queda foi vista como um dos grandes símbolos do fracasso do bloco comunista em todo o leste europeu.

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Resumo

  • O Muro de Berlim foi um dos grandes símbolos da Guerra Fria e esteve de pé durante 28 anos.

  • Foi construído em 1961 para conter o êxodo de habitantes da Alemanha Oriental.

  • A queda do Muro de Berlim está relacionada com a crise econômica e política que atingiu a Alemanha Oriental, na década de 1980.

  • A abertura das fronteiras da Alemanha Oriental foi anunciada pelo porta-voz do país, em novembro de 1989.

  • Milhares de pessoas reuniram-se no Muro de Berlim e começaram a derrubá-lo usando ferramentas, como pás e picaretas.

  • A queda do Muro de Berlim foi concluída com a reunificação das Alemanhas, em outubro de 1990.

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Antecedentes históricos

O Muro de Berlim foi um dos grandes símbolos da Guerra Fria, o nome pelo qual conhecemos o conflito político-ideológico que dividiu o mundo durante grande parte do século XX. Nessa divisão, o mundo tinha duas grandes potências: os Estados Unidos, a frente do capitalismo; e a União Soviética, a frente do comunismo.

A Guerra Fria dividiu o mundo nesses dois grandes blocos, e, no caso da Alemanha, essa divisão ganhou uma dimensão maior. Isso porque ao final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha, após ser derrotada, foi ocupada e dividida em quatro zonas de influência: uma francesa, uma britânica, uma norte-americana e uma soviética.

Essa ocupação fez com que a Alemanha fosse dividida em dois grandes blocos, um alinhado com o capitalismo e o outro com o comunismo. Surgiram, assim, a República Federal Alemã (RFA), mais conhecida como Alemanha Ocidental, e a República Democrática Alemã (RDA), mais conhecida como Alemanha Oriental, ambas com capital em Berlim.

No caso de Berlim, essa disputa ocorreu pela divisão da cidade, mesmo que ela estivesse encravada dentro do território comunista. Isso porque Berlim era uma cidade grande e estratégica da qual ninguém quis abrir mão, o que resultou na sua divisão em Berlim Ocidental (RFA) e Berlim Oriental (RDA). Essa divisão estendeu-se durante cinco décadas na história da Alemanha.

Uma vez que o quadro da Guerra Fria foi consolidado, os dois blocos começaram a tomar ações para impor-se sobre o outro. Os Estados Unidos, visando a conter o crescimento do bloco comunista na Europeu, organizou o Plano Marshall, no qual os países europeus receberiam grandes somas de dinheiro americano para serem reconstruídos da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial.

O impacto do Plano Marshall na Alemanha foi visível, e o lado ocidental do país logo foi desenvolvido. A população da Alemanha Oriental, insatisfeita com a condução política e econômica de seu país, começou um grande êxodo para o lado ocidental. A perda de habitantes da Alemanha Oriental foi gigantesca e, entre 1948 e 1961, cerca de 2,7 milhões de pessoas haviam abandonado o país|1|.


Imagem do Muro de Berlim do lado ocidental tirada em 1988.**

Decididos a conter essa fuga de habitantes, os líderes da Alemanha Oriental e da União Soviética, Walter Ulbricht e Nikita Kruschev, respectivamente, resolveram construir um muro que isolasse Berlim Ocidental. O Muro de Berlim começou a ser construído na virada de 12 para 13 de agosto, junto a ele foi construída uma cerca de arame farpado. Os blocos de concreto começaram a ser colocados nos dias seguintes.

O Muro de Berlim, oficialmente, isolou Berlim Ocidental, e os cidadãos da Alemanha Oriental foram proibidos de entrar na porção ocidental de Berlim. Durante 28 anos, foi o grande símbolo da divisão do mundo em decorrência da Guerra Fria.

Queda do Muro de Berlim

O bloco comunista, após a Segunda Guerra, sustentou-se durante décadas, mas, na década de 1980, a economia comunista em geral colapsou. O colapso da economia comunista foi reflexo de políticas econômicas inadequadas que não passaram por reformas. O resultado disso foi sentido também na Alemanha Oriental por meio do aumento da dívida externa do país, escassez de mercadorias etc.

A ineficácia da economia comunista (e consequentemente da Alemanha Oriental) gerava uma insatisfação que era amplificada pela inexistência de reformas políticas, uma vez que esse desejo na população era represado pelo autoritarismo. Tentativas de reformas na Alemanha, Hungria e Checoslováquia foram duramente reprimidas pelos soviéticos em 1953, 1956 e 1968, por exemplo.

No final da década de 1980, uma série de movimentos de oposição começou a ser organizada na Alemanha Oriental, mas que foi duramente reprimida. Mas os acontecimentos que se passavam nos outros países do bloco comunista começaram a fazer com que a crise da Alemanha Oriental fosse agravada.

Economicamente, a situação já era muito ruim o que motivava as pessoas a alimentarem o desejo de abandonar o país. Esse desejo foi possível quando, em 1989, a Hungria abriu as suas fronteiras com os países do oeste, isto é, os países capitalistas. O reflexo disso, na Alemanha Oriental, foi considerável, uma vez que milhares de pessoas começaram a migrar para a Hungria para que de lá pudessem atravessar a fronteira com a Áustria e, então, solicitar asilo político na embaixada da Alemanha Ocidental.

Além disso, a Polônia, no mesmo ano, passou por uma grande reforma que possibilitou que o primeiro governo não comunista fosse eleito no país desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Isso também motivou milhares de alemães (da porção oriental) a buscar uma nova vida na Polônia. O crescimento do sentimento de insatisfação da população alemã com seu governo motivou grandes protestos em cidades como Berlim Oriental e Leipzig, as maiores cidades da Alemanha Oriental.

Em outubro e novembro de 1989, os protestos que aconteceram no país foram os maiores desde a década de 1950, e a crise do governo ficava evidenciada pela série de pedidos de demissão de membros do governo da Alemanha Oriental. As tentativas de repressão do governo comunista da Alemanha fracassaram.

O fluxo de alemães (da porção oriental) que procurava nações vizinhas do bloco comunista para alcançar a Alemanha Ocidental cresceu tanto que o governo da RDA, na época governada por Egon Krenz, decidiu decretar uma lei que abriria as fronteiras do país. Essa decisão foi anunciada pelo porta-voz do governo da RDA, Günter Schabowski.

O porta-voz da Alemanha Oriental anunciou por meio de coletiva de imprensa a nova lei de mobilidade de cidadãos, que decretava que não existiriam mais restrições na fronteira da Alemanha Oriental. O porta-voz também afirmou, equivocadamente, que a lei entraria em vigor em caráter imediato, o que motivou uma multidão a se aglomerar nos postos de fronteira da Alemanha Oriental.

A aglomeração de pessoas ao redor do Muro de Berlim foi por volta de 100 mil pessoas, o que forçou Krenz a ratificar a lei. O anúncio foi realizado na manhã de 9 de novembro de 1989, e, na virada de 9 para 10 de novembro, as pessoas que se reuniram começaram a derrubar o muro que separava os dois lados de Berlim.

A simbologia da queda do Muro foi tão grande, que o debate a respeito da reunificação das Alemanhas, separadas desde a década de 1940, ganhou força. O chanceler da Alemanha Ocidental e membro de um partido de centro-direita, Helmut Kohl, foi quem conduziu politicamente o processo de unificação. Esse processo foi formalmente finalizado em 3 de outubro de 1990, e as fronteiras foram totalmente abertas em 1º de julho de 1991.

A derrubada do muro de Berlim e a reunificação das Alemanhas causaram uma grande comoção nacional e foram comemoradas nas ruas de todo o país.

Acesse também: Veja mais sobre o conflito que contribuiu para colapsar a economia soviética

Consequências

As duas grandes consequências da queda do Muro de Berlim foram:

  • Contribuiu para acelerar a queda do bloco comunista.

  • Contribuiu para a reunificação da Alemanha.

Após a queda do Muro de Berlim, o desafio foi o de modernizar a Alemanha Oriental e reconstruir a economia dessa porção do país. Existem especialistas que estudam hoje a chamada “barreira mental”, que corresponde aqueles alemães que, mesmo passadas três décadas da queda do muro, ainda defendem a sua reconstrução e a separação das Alemanhas.

|1| BRENER, Jayme. Leste europeu: a revolução democrática. São Paulo: Atual, 1990, p. 104.
*Créditos da imagem: Neftali e Shutterstock
**Créditos da imagem: 360b e Shutterstock

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